Afantasia, Hiperfantasia e Escrita Criativa: Seu Tipo de Imaginação Importa?

Afantasia, Hiperfantasia e Escrita Criativa: Seu Tipo de Imaginação Importa?

 

Tem uma pergunta que aparece muito entre escritores iniciantes, e quase nunca recebe uma resposta honesta: “Eu preciso ver a cena na minha cabeça para conseguir escrever?”

A resposta curta é não. Mas a história completa é mais interessante do que isso.

Existe um espectro de como as pessoas imaginam, e afantasia e escrita criativa estão muito mais conectadas do que parece, só que não da forma que você imagina. Algumas pessoas fecham os olhos e literalmente assistem a um filme interno. Com luz, cor, movimento, expressão facial. Às vezes até som. Outras pessoas não veem absolutamente nada. Pensam, lembram, criam, mas sem nenhuma imagem mental.

E isso não é criatividade. Não é bloqueio. Não é déficit.

É só outro jeito de funcionar.

Se você já se perguntou por que “ver” a cena não garante um bom texto, ou por que escrever sem imagens mentais pode resultar em algo poderoso, este artigo é para você.

 

O Que São Afantasia e Hiperfantasia

 

Afantasia: quando não aparece imagem nenhuma

O termo afantasia foi popularizado pelo neurocientista Adam Zeman, da Universidade de Exeter, em 2015. Ele descreve a ausência de imaginação visual voluntária. A pessoa é capaz de pensar, raciocinar, criar e lembrar, mas sem nenhuma representação visual interna.

Estima-se que entre 2% e 5% da população tenha afantasia. Não é um distúrbio. Não é diagnosticado em consulta. A maioria das pessoas só descobre quando alguém pergunta: “Você vê imagens mentais?”

E a resposta é: não. Nunca vi. Achei que ninguém via.

Pensa num exemplo concreto. Você pede para alguém com afantasia lembrar da casa onde cresceu. Ela lembra. Sabe quantos quartos tinha, onde ficava a cozinha, o cheiro de determinado cômodo. Mas não consegue ver a casa. Ela lembra sabendo, não vendo. Como um mapa sem imagem.

 

Hiperfantasia: quando a mente projeta filmes

No outro extremo do espectro está a hiperfantasia. Quem a tem descreve imagens mentais extremamente vívidas, quase indistinguíveis da percepção real. Fecha os olhos, pensa num pôr do sol na praia, e vê cor, reflexo, luz na água, movimento das ondas.

Não é metáfora. É experiência sensorial interna.

A hiperfantasia também não é mais comum do que a afantasia em termos de pesquisa, mas tende a ser menos percebida como “diferente” porque coincide com o que muitas pessoas assumem ser imaginação normal.

 

A maioria das pessoas está no meio

Entre os dois extremos existe um espectro enorme. Muita gente vê imagens mentais vagas, borradas, como sombras. Outros têm clareza só em algumas situações. Outros precisam de esforço para visualizar qualquer coisa.

Não existe certo ou errado. Existe o seu jeito.

Por Que Isso Confunde Tanto Quem Escreve

Quando eu trabalho com escritores no Fábrica de Contos, um dos bloqueios mais comuns não é técnico. É essa crença silenciosa de que “quem vê bem, escreve bem”. E que quem não vê está em desvantagem.

Essa crença é falsa. E ela sabota dos dois lados.

 

O problema de quem vê tudo muito vívido

Quem tem hiperfantasia costuma sentir que deveria escrever melhor, justamente porque “já está vendo tudo”. A cena é rica, detalhada, cinematográfica. Parece que só precisa transcrever.

Aí senta para escrever e uma das duas coisas acontece: trava, ou escreve demais.

Quando trava, é porque a imagem está tão presente que qualquer palavra parece insuficiente. Nenhuma frase dá conta do que está sendo visto internamente.

Quando escreve demais, é porque tenta colocar cada detalhe no papel. A cor da parede, a postura do personagem, a textura do tecido, a luz entrando pela fresta. E o texto fica pesado. Lento. Cansativo de ler.

Porque a leitura não funciona assim.

O leitor não precisa ver tudo. Ele precisa entender o suficiente para se envolver.

 

O problema de quem não vê nada

Quem tem afantasia geralmente assume que está em desvantagem. Que escrever ficção exige algo que ela simplesmente não tem. Fica tentando forçar imagens que não vêm, se sentindo bloqueada num lugar onde talvez não haja bloqueio nenhum.

Só uma suposição equivocada sobre como a escrita funciona.

Na prática, muitos escritores com afantasia escrevem de forma direta, sem excesso descritivo, com foco no que realmente importa numa cena: o que está em jogo, o que os personagens querem e o que está impedindo.

Esse é exatamente o tipo de escrita que Stephen King descreve em “Sobre a Escrita” quando fala em manter o leitor dentro da história, sem interromper o ritmo com descrições longas demais.

 

Como Cada Tipo de Imaginação Afeta Sua Escrita na Prática

Pensa num exemplo simples. Você vai escrever uma cena de discussão entre dois personagens.

Quem tem hiperfantasia pode começar assim:

A cozinha estava iluminada pela luz amarelada do fim de tarde. Maria se apoiou na bancada de mármore frio, os braços cruzados sobre o avental. Lucas ficou parado na porta, a mochila ainda no ombro.

Tudo isso antes de uma palavra ser dita.

Quem tem afantasia pode escrever assim:

Ele queria encerrar. Ela não deixava. Cada frase piorava a situação.

E funciona. Porque tem conflito, tem movimento, tem tensão.

Nenhuma das duas versões é melhor em si. Mas a segunda está mais perto do que o leitor precisa para entrar na cena. A primeira pode funcionar, desde que o que vier depois justifique essa entrada mais lenta.

O Que Fazer de Acordo com o Seu Tipo de Imaginação

Se você vê tudo muito vívido: aprenda a cortar

Essa é a habilidade que mais transforma o texto de quem tem hiperfantasia: a edição intencional de descrição.

Você não precisa colocar tudo que viu. Quase nunca deve.

Um exercício simples e útil: escreva a cena com tudo que está vendo. Depois volte e corte metade das descrições visuais. Metade mesmo. Sem piedade. O texto costuma melhorar na mesma hora.

Outro ponto importante: a câmera não precisa registrar tudo. Escolha os detalhes que carregam significado. O pormenor que revela algo sobre o personagem, sobre a situação, sobre o que está por vir. O restante pode ficar de fora.

Clarice Lispector sabia disso. Ela via com uma clareza perturbadora e escolhia com precisão cirúrgica o que ficava na página. Não era ausência de visão. Era domínio do corte.

 

Se você não vê nada: pare de forçar imagem

Forçar algo que não existe não ajuda ninguém.

Em vez de tentar visualizar, foque em três perguntas:

  • O que o personagem quer nesta cena?
  • O que está impedindo ele de conseguir?
  • O que acontece depois?

Essas três perguntas sustentam praticamente qualquer cena. Com tensão, com movimento, com razão para o leitor virar a página.

Você pode complementar com memória sensorial não visual: sons, cheiros, temperatura, textura, sensação física. Esses elementos criam presença sem depender de imagem mental.

Dica prática: Se você tem afantasia, experimente escrever em primeira pessoa. O acesso direto ao pensamento e à emoção do narrador compensa a ausência de descrição visual e cria proximidade imediata com o leitor.

Para qualquer tipo de imaginação: lembre que o leitor constrói a imagem

Aqui está algo que muda tudo quando você entende de verdade.

O leitor não está vendo o mesmo que você.

Mesmo que você descreva muito, cada pessoa monta uma versão diferente na cabeça. A cor dos olhos do personagem, o sotaque da voz, o formato da mesa. Tudo isso vai ser preenchido pelo imaginário particular de cada leitor.

Tentar controlar isso é inútil e desgastante. Funciona melhor quando você sugere e deixa espaço.

Escrever não é pintar uma tela para o leitor ver. É acender uma faísca para ele criar a própria imagem.

Afantasia e Hiperfantasia Não Determinam Seu Talento

Escritores com afantasia produzem ficção densa, emocional, envolvente. Escritores com hiperfantasia produzem prosa visual, sensorial, cinematográfica. E muita gente no meio do espectro faz as duas coisas dependendo do humor, do texto, do personagem.

O problema nunca é ter muita imagem ou nenhuma.

É não saber o que fazer com isso na hora de escrever.

Quando você entende como sua imaginação funciona, para de lutar contra ela e começa a trabalhar com ela. Você aprende a usar seus pontos fortes e a compensar os pontos cegos.

Isso é o que eu trabalho com as escritoras do Fábrica de Contos: não existe um único caminho para o texto funcionar. Existe o seu caminho, com as suas ferramentas, reconhecidas e desenvolvidas.

Se você quer entender melhor como construir cenas que funcionam independente do seu tipo de imaginação, o Fábrica de Contos tem um método inteiro para isso.

E se você prefere começar pelo básico, no canal do YouTube @escritornapratica tem vídeos sobre construção de cena, ponto de vista e tensão narrativa que complementam tudo o que conversamos aqui.

 

Leituras que ajudam a aprofundar o tema

Por Denise Peixoto

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